O SALTO

Saindo do CLT em agência para empreender em rede

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Imagine uma agência de comunicação super criativa, com um espaço de trabalho inspirado nas últimas tendências de design e que oferece salários topo de mercado para sua equipe. Imagine que essa mesma agência ganha consecutivamente o prêmio de agência do ano e que ela tem clientes globais investindo milhões de dólares em grandes campanhas de marketing.

Acabo de descrever a agência na qual sonhava trabalhar. Essa agência existe, fica em Amsterdam e uma experiência conectada a esse lugar, foi a faísca inicial de um longo processo de desconstrução que me trouxe aqui hoje.

Tudo aconteceu por causa de uma fato inusitado. O diretor de planejamento dessa agência me encontrou no couchsurfing e escreveu perguntando se eu gostaria de tomar uma cerveja com ele para falar sobre o Rio, pois ele viajava sozinho e queria dicas. Na hora pensei “uau, essa oportunidade caiu do céu” e marquei o encontro. Mas para minha surpresa, tudo saiu completamente diferente do que eu esperava.

Ao invés de parecer um publicitário de sucesso todo trabalhado no estilo e no design, o cara mais parecia uma mistura de John Lennon com Tom Hanks em “O Náufrago”. Ele me explicou que havia pedido demissão e que tirava um ano sabático para viajar pelo mundo. Essa decisão me parecia absurda, afinal de contas, por que ele abandonaria um trabalho tão incrível? Rapidamente ele começou a revelar o lado b da agência e me disse que lá existia uma grande guerra de egos, arrogância e que a vida de todos girava apenas em torno de resolver briefings e ganhar prêmios, o ambiente era de stress, as pessoas estavam infelizes e ele não aguentava mais. Naquele momento vi meu sonho nu e cru, como ele realmente era: Uma fantasia.

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Diferente de algumas pessoas que conheço, escolher uma profissão não foi um problema pra mim. Me encontrei na faculdade de Propaganda e Marketing e comecei a trabalhar logo no segundo período. Fiz diferentes estágios, mas ao final da faculdade já sabia que queria entrar pro mundo das agências e criar estratégias de comunicação. Ao longo dos oito anos em que trabalhei como planejamento e basicamente três coisas me importavam: Primeira, se estava aprendendo e me desenvolvendo, segunda, se estava ganhando bem, e terceira, se aquele trabalho poderia me ajudar a ter uma carreira internacional. Comecei em uma agência com 7 pessoas, em uma sala de 20 metros quadrados no centro do Rio e aos poucos fui trocando de agência, até finalmente trabalhar em um escritório global, parte do maior grupo de mídia e comunicação do mundo. Conheci pessoas maravilhosas e fiz amigos para a vida toda, mas ainda assim não me sentia realizada. Pelo contrário, sentia um grande desconforto.

Esse desconforto não tinha a ver com o trabalho em si que eu desenvolvia, mas sim com a forma com a qual ele era feito e para quem ele era feito. Não me parecia certa a quantidade de horas extras não remuneradas que as pessoas faziam e nem inteligente os processos internos que pouco promoviam colaboração e criatividade. Em muitos casos, não era justa a relação entre remuneração e responsabilidade, e definitivamente, para mim, não foi fácil vender cigarros, principalmente, enquanto a minha mãe fazia quimioterapia para tratar um câncer de pulmão.

De dentro da agência me sentia um pouco presa, sabia que havia um mundo lá fora de criatividade e empreendedorismo, lia sobre a nova economia e também sobre a tendências do trabalho em rede. Mas como um peixe dentro do aquário, sobrava pouco tempo para experimentar tudo aquilo. Eu tinha medo de me aventurar e me preocupava não poder contar com um salário todo mês. Lado a lado com o meu medo, seguia o meu pré conceito, pois achava que a maioria das pessoas empreendendo como autônomos ou freelancers vinham de famílias ricas, e que portanto, mais importava a liberdade e a experimentação, do que fazer dinheiro e crescer como negócio.

Acontece que estava errada.

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No meu caso, a vida deu um empurrão no processo de transição. O medo e o pré conceito não diminuíram e mudei de trabalho e estilo de vida mesmo com eles, ou seja, primeiro fiz o movimento em um salto de fé.  A minha mãe estava muito doente e eu sentia que precisava estar com ela, e que por mais difícil que fosse acreditar, sabia que aqueles eram os últimos dias de vida dela. O meu amor por ela precisava ser maior que o meu medo. As pessoas na agência foram muito compreensivas comigo e enfim, criei coragem para me desligar. Passei as semanas seguintes no hospital com a minha mãe, e ela então, faleceu duas semanas depois.

Perder a mãe, como vocês podem imaginar, é indescritível. Sinto que quando ela morreu, uma parte de mim morreu também, mas sei que ela vive em mim e através de mim. Ver a pessoa que mais amo no mundo morrer, me fez refletir sobre muitas coisas. E uma delas, claro, foi sobre profissão e trabalho. Pela primeira vez senti com clareza o quão efêmera a vida é, o quão rápido o tempo passa e a importância de se dedicar às coisas que fazem sentir e que fazem sentido. Ficou claro o valor de buscar ser feliz no momento presente e todas essas coisas óbvias que a gente sabe, mas que nem sempre sente em um nível mais profundo ou põe em prática.

Quanto mais pesquisava sobre startups, nômades digitais e trabalho em rede, mais me identificava e encontrava respostas e caminhos para os meus desconfortos. Visitei todos os coworkings do Rio de Janeiro, tomei cerveja com amigos e amigos de amigos empreendedores para entender o contexto deles e continuei sentando para trabalhar todos os dias, mesmo sem ter um cliente ou projeto em vista. E nesse momento de transição, duas coisas foram muito importantes para mim: Networking e dedicação.

Goma
TemploGávea_fonte_coworkingbrasil

 

 

Nex_Coworking
Coworkings RJ, na ordem: Templo, Goma e Nex.

 

Sobre o networking segue uma dica que me ajudou que muito. Abri uma planilha de excel no Google Drive e mapeei a minha rede, olhei minha lista de amigos no Facebook, Instagram e LinkedIn, anotei o nome de todas as pessoas cujo trabalho tem a ver com o meu e para pessoa eu anotei “de onde eu conheço”, “onde ela trabalha hoje”, “se eu gostaria de trabalhar com ela” e “status, eu já contactei essa pessoa?”. O segundo passo foi agitar uma reconexão e marcar cafés para trocar ideias. A primeira pessoa com quem falei foi a própria Julia Ruiva e nem preciso dizer que meu networking já começou com o pé direito, né? Rendendo projetos e amizade. 🙂

Sobre dedicação, o que funcionou para mim foi o cuidado de manter uma disciplina de trabalho. Continuei acordando 8 da manhã, fazendo exercícios físicos, tomando café da manhã, e naquela época, trabalhando até o anoitecer com uma pausa para o almoço. A grande diferença hoje é poder cozinhar minha própria comida. Fazia, e ainda faço, isso todos os dias para criar um hábito. Quando rola um bloqueio ou me sinto dispersa, vou para um café com wifi (aqui tem uma lista ótima) ou pego uma diária em algum coworking.

Em menos de dois meses comecei a trabalhar em uma startup francesa com sede no Rio, um convite que não surgiu como uma proposta de trabalho formal, mas que foi construído junto e aos poucos. Uma experiência bastante diferente da vida em agência, com outros desafios e muitas novas emoções. Mas essa experiência e as que vieram a seguir é assunto para o próximo texto!

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Independente do momento que você está na sua jornada, lembre-se a sua vida é só sua e é única. Os medos fazem parte e sempre existem, eles só se transformam, assim como você.

 

Obrigada por chegar até aqui 🙂

Fernanda

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